Representantes de 19 estados e do Distrito Federal aprovaram propostas sobre financiamento, políticas públicas, educação, formação, concursos, salvaguarda, diversidade, profissionalização e fortalecimento das quadrilhas juninas. Deliberações de interesse público formarão a Carta de Brasília 2026.

O III Simpósio Nacional de Quadrilhas Juninas foi encerrado neste sábado, 22 de agosto de 2026, em Brasília (DF), após três dias de debates que culminaram em uma ampla agenda nacional de propostas para o fortalecimento do movimento junino brasileiro.
Realizado nos dias 20, 21 e 22 de agosto, o encontro reuniu representantes de 19 estados e do Distrito Federal, incluindo todos os nove estados do Nordeste e delegações de Mato Grosso, Goiás, Rondônia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Roraima, Pará, Tocantins e Acre.
O momento decisivo aconteceu durante a plenária final, quando os delegados representantes dos estados analisaram as propostas construídas durante o Simpósio e manifestaram voto favorável ou contrário a cada encaminhamento.
Antes de cada votação, foram apresentadas sínteses dos debates realizados nos diferentes eixos temáticos. Dessa forma, propostas originadas nas palestras, mesas, intervenções e comissões passaram por uma etapa final de apreciação coletiva.
As deliberações terão dois destinos. As propostas relacionadas diretamente à organização, regulamentação e funcionamento interno da CONFEBRAQ serão encaminhadas à ANEJ — Assembleia Nacional. Já as reivindicações relacionadas às políticas públicas e à atuação dos poderes públicos formarão a Carta de Brasília 2026, documento que deverá ser encaminhado aos governos, órgãos culturais e demais instituições competentes.
Economia criativa e sustentabilidade financeira
O eixo Economia Criativa e Sustentabilidade Financeira do Movimento Junino discutiu a necessidade de profissionalização das quadrilhas, formalização jurídica, planejamento financeiro, captação de recursos e acesso aos mecanismos públicos e privados de financiamento.
A quadrilha junina foi reafirmada como integrante da economia criativa, responsável por movimentar trabalho, renda, produção artística, serviços, circulação cultural e desenvolvimento territorial.
Foram aprovadas:
- Captação de recursos para o Concurso Nacional da CONFEBRAQ, com liberdade para divulgação dos apoiadores durante as apresentações;
- unificação dos tempos de produção, apresentação e dispersão no Concurso Nacional, passando a ser adotado um tempo total corrido, com liberdade para que cada quadrilha administre esse período de acordo com sua proposta artística e suas necessidades de apresentação;
- oferta de assessoria contábil e jurídica para abertura de CNPJ e estruturação institucional das quadrilhas;
- elaboração de um guia orientativo para captação de recursos por meio da Lei Rouanet;
- criação de categoria específica “Quadrilhas Juninas” nos editais federais;
- implantação da Escola Nacional do Movimento Junino, em formato EAD;
- realização de uma audiência pública nacional sobre o movimento junino e organização do 4º Simpósio Nacional com participação de autoridades públicas;
- reconhecimento das quadrilhas juninas como Escolas Livres da Cultura;
- ampliação de editais destinados às quadrilhas infantis e fortalecimento da atuação das quadrilhas dentro das escolas.
O conjunto coloca financiamento, capacitação e estruturação institucional entre as prioridades nacionais do movimento.
Educação entra definitivamente na pauta do movimento junino
A plenária também aprovou propostas específicas voltadas à relação entre quadrilhas juninas, escolas, cultura e políticas educacionais.
Uma das principais deliberações prevê uma articulação direta entre os ministérios da Educação e da Cultura.
Foram aprovadas:
- Integração Curricular Interministerial — MEC/MinC: integrar as quadrilhas juninas ao currículo da Educação Básica como patrimônio cultural, promovendo uma abordagem interdisciplinar e transformando a cultura junina em eixo de aprendizagem contínua, por meio de articulação entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura;
- criação de um Festival Nacional de Quadrilhas Juninas do Brasil, concebido como ação de salvaguarda, intercâmbio de saberes e celebração da diversidade estética e narrativa do movimento junino das diferentes regiões brasileiras;
- implantação de uma Parceria Escola-Comunidade com a Cultura Viva, promovendo uma integração contínua entre a quadrilha junina local e as escolas de Educação Básica do seu território, utilizando o fazer junino como ferramenta transdisciplinar alinhada ao Projeto Político-Pedagógico das escolas e fortalecida pela certificação dos grupos juninos como Pontos de Cultura.
As propostas reforçam a compreensão de que as quadrilhas não devem ser vistas apenas como atrações sazonais, mas também como espaços permanentes de transmissão de conhecimento, memória, formação cidadã e educação cultural.
Inovação e espetacularização
No eixo Inovação e Espetacularização, o Simpósio discutiu corpo, identidade, coreografia, figurino, música, dramaturgia e inovação estética.
A plenária reconheceu que a quadrilha pode incorporar novas linguagens, técnicas e recursos contemporâneos, desde que a inovação não resulte no apagamento das referências regionais e culturais que constituem a manifestação.
Foram aprovadas:
- criação de acervos digitais pelas federações estaduais, com acompanhamento da CONFEBRAQ;
- construção de uma matriz estética de referência regional para subsidiar avaliações e processos de formação;
- criação de um instrumento de valorização dos mestres e das salvaguardas juninas;
- fiscalização das ações e assembleias das federações filiadas à CONFEBRAQ.
O entendimento consolidado é de que inovação e tradição não precisam ocupar campos opostos: é possível transformar a linguagem artística mantendo vínculos com memória, território e identidade.
Concursos e circuitos competitivos
O eixo Concursos e Circuitos Competitivos, apresentado pelo Prof. Me. Fabrício Alencar, do Ceará, discutiu critérios de avaliação, formação de jurados, transparência, ética e respeito às diferentes realidades regionais.
As discussões reconheceram a quadrilha simultaneamente como cultura popular tradicional, manifestação artística e patrimônio imaterial.
Foram aprovadas:
- realização de uma formação nacional pautada nas regionalidades e particularidades de cada estado, com participação de avaliadores, fazedores de cultura e público;
- realização de simpósios estaduais, fortalecendo a formação descentralizada;
- realização de um Congresso Técnico antes do Concurso Nacional, reunindo jurados, quadrilhas, brincantes e fazedores;
- mediação da CONFEBRAQ para organização de simpósios destinados às quadrilhas mirins;
- inclusão da contribuição das mães LGBTQIAPN+ na construção do São João, acompanhada do enfrentamento aos discursos de intolerância nos eventos da CONFEBRAQ.
O eixo também destacou a necessidade de impedir que os concursos provoquem uma homogeneização das quadrilhas brasileiras, reconhecendo que cada território construiu formas próprias de dançar, narrar, vestir, interpretar e celebrar o São João.
Formação, inclusão e desenvolvimento humano
O eixo Formação, Inclusão e Desenvolvimento Humano nas Quadrilhas discutiu acessibilidade, diversidade, direitos, pertencimento e protagonismo.
A plenária defendeu que pessoas negras, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, pessoas de diferentes corpos, idades e realidades sociais devem não apenas participar das quadrilhas, mas encontrar condições efetivas de protagonismo.
Foram aprovadas:
- revisão de regulamentos para garantir papéis de destaque independentemente de gênero;
- criação de espaços permanentes de discussão e enfrentamento ao preconceito;
- promoção de encontros de pesquisadores ligados ao movimento junino;
- realização de debates sobre acessibilidade na linguagem da dança;
- inclusão do letramento junino e da temática da diversidade nas próximas edições do Simpósio.
Saúde mental, segurança, acolhimento e condições adequadas para a participação dos brincantes também apareceram como preocupações estruturantes.
Performance contemporânea, estética, dramaturgia e dança
Outro conjunto de discussões tratou da quadrilha contemporânea como uma manifestação cultural em permanente processo de criação, apropriação, transformação e reinvenção.
Dramaturgia, figurino, cenografia, música, personagens, coreografia e elementos visuais foram analisados como partes de uma linguagem cênica que articula dança, teatro e performance.
O eixo também estabeleceu um diálogo direto com a Política Nacional Cultura Viva, a formalização dos grupos e a necessidade de produção de informações sobre o movimento.
Foram aprovadas:
- criação de um banco de dados nacional sobre quadrilhas juninas, mediado pela CONFEBRAQ e alimentado pelas entidades estaduais;
- inclusão do critério Tema na avaliação da CONFEBRAQ;
- inclusão do critério Casamento na avaliação da CONFEBRAQ;
- convocação de representantes estaduais para atualização do regulamento da CONFEBRAQ no segundo semestre de 2026;
- criação de um núcleo permanente para atuação e fomento das quadrilhas infantojuvenis;
- realização de formação técnica nacional de avaliadores, com enfoque multicultural e respeito às estéticas regionais;
- recomendação para que os avaliadores considerem as informações contidas nas sinopses dos espetáculos, evitando despontuações indevidas.
Com a separação dos itens Tema e Casamento, a plenária reconhece individualmente dois componentes relevantes da construção artística e da identidade dos espetáculos juninos.
Banco nacional de dados deverá ajudar a dimensionar o movimento
A criação de um banco nacional de dados responde a uma das preocupações recorrentes durante os três dias do Simpósio.
O movimento ainda enfrenta dificuldades para apresentar ao poder público uma radiografia nacional consolidada sobre quantas quadrilhas existem, quantas pessoas participam, quais profissionais integram a cadeia produtiva, em quais territórios estão presentes e quais impactos sociais e econômicos são produzidos.
A proposta aprovada pretende transformar essa ausência de informações em uma agenda permanente de organização e produção de dados.
Paralelamente, os acervos digitais estaduais deverão contribuir para a preservação da memória de grupos, mestres, festivais, figurinos, músicas, coreografias, documentos e diferentes manifestações regionais.
Quadrilhas infantis e infantojuvenis recebem atenção especial
A preocupação com a continuidade do movimento apareceu em vários eixos e gerou mais de uma deliberação.
Além da ampliação dos editais para quadrilhas infantis, foram aprovados um núcleo permanente de fomento às quadrilhas infantojuvenis, simpósios específicos para grupos mirins e maior aproximação entre as quadrilhas e o ambiente escolar.
O entendimento é de que salvaguardar a cultura junina também significa garantir que crianças e adolescentes tenham condições de conhecê-la, praticá-la e assumir futuramente sua continuidade.
Tecnologia, comunicação e presença digital
O eixo Tecnologia, Comunicação e Presença Digital no Movimento Junino não apresentou propostas para votação, mas contribuiu para o diagnóstico nacional construído durante o encontro.
A discussão destacou que a presença digital qualificada amplia a visibilidade, circulação e impacto cultural das quadrilhas e pode fortalecer a sustentabilidade do setor.
Durante o eixo foram apresentados dados que apontam que o movimento junino movimenta aproximadamente R$ 9 bilhões, mobiliza cerca de 140 milhões de pessoas e teria aproximadamente 45 milhões diretamente envolvidas.
A palestra também destacou a importância da inclusão social, da função cultural e do papel das quadrilhas como agentes de impacto simbólico e econômico.
Confira o conjunto das propostas aprovadas
Economia Criativa e Sustentabilidade Financeira
- Captação de recursos para o Concurso Nacional da CONFEBRAQ, com divulgação de apoiadores;
- tempo total corrido no Concurso Nacional, reunindo produção, apresentação e dispersão, com gestão livre pelas quadrilhas;
- assessoria jurídica e contábil para formalização;
- guia de orientação para Lei Rouanet;
- categoria “Quadrilhas Juninas” nos editais federais;
- Escola Nacional do Movimento Junino em formato EAD;
- audiência pública nacional;
- 4º Simpósio Nacional com autoridades;
- reconhecimento das quadrilhas como Escolas Livres da Cultura;
- ampliação de editais para quadrilhas infantis;
- atuação das quadrilhas nas escolas.
Educação, Cultura e Salvaguarda
- Integração das quadrilhas juninas ao currículo da Educação Básica por articulação MEC/MinC;
- realização do Festival Nacional de Quadrilhas Juninas do Brasil;
- parceria permanente entre quadrilhas, escolas e comunidades por meio da Política Cultura Viva e dos Pontos de Cultura.
Inovação e Espetacularização
- criação de acervos digitais estaduais;
- matriz estética de referência regional;
- instrumento de valorização de mestres e salvaguardas;
- fiscalização das ações e assembleias das federações filiadas à CONFEBRAQ.
Concursos e Circuitos Competitivos
- formação nacional respeitando as particularidades estaduais e regionais;
- simpósios estaduais;
- Congresso Técnico antes do Concurso Nacional;
- simpósios para quadrilhas mirins;
- valorização da contribuição das mães LGBTQIAPN+ e combate à intolerância.
Formação, Inclusão e Desenvolvimento Humano
- papéis de destaque independentemente de gênero;
- espaços permanentes de enfrentamento ao preconceito;
- encontros de pesquisadores;
- debates sobre acessibilidade na dança;
- letramento junino;
- diversidade nas próximas edições do Simpósio.
Performance Contemporânea, Estética, Dramaturgia e Dança
- banco nacional de dados das quadrilhas juninas;
- Tema como critério próprio de avaliação;
- Casamento como critério próprio de avaliação;
- atualização do regulamento da CONFEBRAQ;
- núcleo permanente de fomento às quadrilhas infantojuvenis;
- formação técnica nacional de avaliadores com enfoque multicultural;
- consideração das sinopses durante as avaliações.
Carta de Brasília 2026 levará reivindicações ao poder público
As propostas aprovadas que dependem de decisões externas ao movimento deverão integrar a Carta de Brasília 2026.
O documento deverá levar aos poderes públicos reivindicações relacionadas a financiamento, educação, formação, salvaguarda, produção de dados, infância e juventude, diversidade, acessibilidade e participação institucional.
Entre os destinatários naturais da agenda estão o Governo Federal, Ministério da Cultura, Ministério da Educação, Funarte, Iphan, Congresso Nacional, governos estaduais, prefeituras e demais estruturas responsáveis pelas políticas culturais e educacionais.
Já as deliberações relacionadas à CONFEBRAQ, seus regulamentos, concursos, federações e mecanismos administrativos seguirão para apreciação da ANEJ — Assembleia Nacional.
A separação busca garantir que cada proposta seja encaminhada para a instância capaz de efetivamente transformá-la em ação.
De Brasília, o movimento cobra uma política permanente
As deliberações do III Simpósio demonstram que o movimento junino brasileiro pretende avançar para além do reconhecimento simbólico.
Os representantes presentes em Brasília reivindicam políticas públicas permanentes, orçamento, instrumentos de financiamento, formação profissional, presença na educação, produção de dados, fortalecimento das novas gerações, proteção da memória e participação direta na elaboração das políticas culturais.
A discussão também evidencia uma contradição que a Carta de Brasília pretende colocar diante dos governos.
As quadrilhas são celebradas como símbolos da cultura brasileira, movimentam cidades, turismo, comércio, produção cultural e enormes contingentes populacionais, mas ainda enfrentam dificuldades para encontrar políticas específicas e permanentes proporcionais à dimensão que possuem.
É justamente daí que nasce a principal provocação deixada pelo encontro:
se as quadrilhas juninas são patrimônio, educação, economia criativa, inclusão social, formação, identidade e uma das maiores expressões da cultura popular brasileira, por que continuam sendo tratadas pelo poder público, muitas vezes, apenas como uma programação de junho?
Com representantes de 19 estados e do Distrito Federal, a plenária de Brasília decidiu transformar essa pergunta em agenda política.
A Carta de Brasília 2026 será o próximo passo.

